Espaço de Intervenção

de António Jorge Arranhado


A Globalização

Inicialmente a chamada globalização ou mundialização era sustentada pelas teorias de Marshall MacLuhan sobre a “Aldeia Global” e cuja expansão se limitaria à cultura e a uma unificação do mundo através dos meios de comunicação social de massas assente num desenvolvimento acelerado das novas tecnologias de informação. Curiosamente já Marx no seu Manifesto Comunista tinha previsto a inevitabilidade do surgimento desta tendência como uma consequência da mundialização da produção.

Hoje, assumidamente de natureza política, económica e financeira e já com evidentes consequências sociais, a globalização poder-se-á definir como a mundialização do capitalismo na sua actual forma, o neoliberalismo, suportado por um modelo baseado na concentração e centralização multinacional do capital, ou seja, reinvestimentos das próprias empresas e fusões ou incorporações das que não resistem à lei do mais forte, e apoiado por um eficaz processamento e transmissão de dados em tempo real.

Com a repentina queda e desintegração da União Soviética e o resultante desmembramento do sistema socialista nos restantes países da Europa do leste, a formação de grandes blocos económicos regionais, tais como a UE, NAFTA, MERCOSUL, etc., o elevado crescimento económico de alguns países asiáticos como o Japão e China, e ainda com o acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, o cenário internacional passou a ser influenciado pela hegemonia política e militar dos Estados Unidos da América, assente num controlo estratégico dos principais meios de produção e financeiros internacionais, restringindo acentuadamente o papel dos Estados na garantia do trabalho e das prestações sociais, incentivando a privatização de cada vez mais empresas públicas para favorecer o mercado financeiro, promovendo o consumismo com a utilização desmesurada de alguns dos recursos naturais existentes, com reais e incalculáveis danos ambientais para toda a humanidade, e transformando igualmente os cidadãos em consumidores de uma cultura padronizada e difundida por uma subtil informação imposta pelas classes dominantes que controlam a tão apregoada economia de mercado.

Apesar das boas intenções de alguns estadistas, nomeadamente europeus, e dos esforços propagandísticos dos defensores da globalização, tornam-se já visíveis as enormes vantagens que a liberalização dos mercados trouxe ao grande capital, em que grupos poderosos ultrapassam na estratégia e decisão a governabilidade de muitos e diferentes países. Veja-se o facto de em Portugal se assistir ao desaparecimento de algumas indústrias simultaneamente com o aumento do sector de serviços, onde se destacam os de negócios e finanças sempre dependentes de orientações exteriores e de cariz monopolista. Tome-se o exemplo da gravíssima crise financeira que atingiu o México em 1994/95, originando recessão, inflacção, falências de empresas e aumento do desemprego, bastou uma repentina e estranha transferência especulativa de biliões de dólares das suas praças bolsistas. E se esta situação eclodir de um momento para o outro a nível regional ? Será legítimo e humanamente aceitável que a actual ditadura do lucro fácil possa perspectivar mais desespero e fome por todo o planeta Terra?

Estamos sem dúvida perante uma “nova ordem internacional” dominada pela ordem política, económica, militar e cultural imposta pelo complexo militar, industrial e financeiro que governa de facto os Estados Unidos. A utilização, sob a forma de pressão directa ou de parcerias de ocasião ou ainda pela simples dominação, de várias organizações internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, as Nações Unidas, a NATO, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), o G-7, a Organização Mundial do Comércio, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), através da qual foi desenvolvido o AMI-Acordo Multilateral de Investimentos, que visava a elaboração de uma constituição mundial, e até o ainda não ratificado e muito discutível Tribunal Penal Internacional (TPI), e apesar de serem instituições com princípios humanistas e de carácter multinacional, constituem um engenhoso mecanismo de imposição do seu contraditório código de “democracia e direitos humanos”, à custa da desregulamentação dos próprios Estados, punindo os pretensos infractores quer com acções militares, como a humilhante (para a Europa) agressão na Jugoslávia, quer com sanções económicas, como os exemplos absurdos de Cuba e Iraque, mas ao mesmo tempo ignorando hipocritamente outras violações dos mais elementares direitos de um povo como o Palestiniano.

A Europa, onde muitos países depositam ainda a esperança de um desenvolvimento sustentado, harmonioso e com uma melhor redistribuição da riqueza, continua refém dos interesses vitais dos EUA, e não só no plano estratégico-militar, é a própria moeda que não consegue libertar-se da dependência cambial do dólar ou mesmo de uma concertada notícia especulativa vinda do outro lado do Atlântico. Já nem a nossa e milenária cultura escapa à globalização da comunicação social, um poder desmesurado no interior do sistema vigente, quase completamente dominada pela oligarquia do capital, explorando a mensagem primária e sensacionalista para domesticação e afastamento das massas da realidade existente à sua volta, escrupulosamente orientada e controlada nos seus objectivos de instrumentalização da consciência humana, exemplarmente ilustrada na manipulação sofisticada da célebre gaivota no petróleo “derramado por Saddam”, e recentemente, na guerra da Jugoslávia onde se montou um despudorado cenário de fabricação e ocultação de factos, com consequências de certo modo imprevisíveis numa região vital para a estabilidade do continente. O futuro próximo revelará os verdadeiros “efeitos colaterais” pateticamente exibidos nos discursos dos submissos dirigentes e generais europeus! Até quando adormecerá a nossa Europa neste berço dourado da “Sam Globalização”?

Afirmo convictamente, sem qualquer receio que o meu pensamento se vá alojar numa base de dados do Echelon, que o complexo industrial-militar dos EUA procura objectivamente a dominação global, contando para os seus desígnios com a cumplicidade de vários políticos europeus que nos transmitem uma ingenuidade tão estúpida quanto maliciosa nos seus propósitos políticos e sociais.

Não podem já restar dúvidas de que a realidade dos nossos dias se enraíza pouco a pouco numa forma de globalização unipolar onde o império militar e financeiro dita as regras, limitando a autonomia dos Estados em promoverem as suas políticas de desenvolvimento de acordo com o sentir e a decisão (por voto) das suas populações, comprometendo obviamente os valores básicos da democracia para além de potencializar nas sociedades as inegáveis consequências dramáticas do aumento da exclusão social, e convidando os cidadãos ao crescente abstencionismo e indiferença ideológica face aos poderes instalados, mas com tendências para a intolerância e o estímulo nacionalista que agravará determinadas conflitualidades latentes em diferenciadas zonas do globo.

Será esta a globalização que irá assegurar a realização plena dos mais elementares Direitos do Homem?

Os diversos relatórios oriundos das mais variadas instituições independentes, incluindo certos organismos das Nações Unidas ainda não totalmente manietados, continuam a revelar indicadores demasiado preocupantes e que identificam cruelmente a realidade da globalização em curso:

  • Agrava-se dramaticamente o fosso entre os países ricos e pobres;

  • Segundo estatísticas optimistas, morrem anualmente de fome mais de 30 milhões de seres humanos;

  • A soma das 3 maiores fortunas pessoais do mundo é superior ao produto interno bruto dos 48 países mais pobres;

  • Mais de 100 milhões de seres humanos não têm lar, e mais de 1.500 milhões vivem sem água potável;

  • As maiores 200 fortunas familiares correspondem à miséria adquirida de 2.600 milhões de seres humanos;

  • Cerca de metade da população mundial, mais de 2.800 milhões, sobrevive com pouco mais de 300$00/dia;

  • No conjunto dos países que integravam o bloco socialista da Europa e Ásia central a pobreza cresceu 20 vezes desde a queda da União Soviética;

  • Em Portugal a pobreza atinge 27% da população;

  • 86% do consumo privado no mundo pertence a somente 20% da população mundial;

  • Por falta de assistência morrem anualmente 13 milhões de crianças até aos 5 anos de idade;

  • Perto de um sexto da humanidade, 1.000 milhões, é analfabeta funcional e mais de 190 milhões de crianças com menos de 12 anos nunca foram à escola nem têm o amparo da família;

  • A ONU estima em cerca de 3.000 milhões de contos anuais as necessidades básicas da população mundial, custos equivalentes a alguns aviões invisíveis e mísseis de cruzeiro;

  • A comunidade científica mundial confirma a possibilidade de situações catastróficas resultantes da acelerada degradação do ambiente e das alterações climatéricas, para as próximas gerações;

  • Etc., etc., etc.

Serão estes os direitos a que se referem nos discursos de pompa e circunstância e profusamente propagandeados pelos media? Serão estas as virtudes de uma economia de mercado? Será isto o futuro desta democracia ocidental? Não estaremos assim cimentando o caminho que nos levará a um colapso social à escala global?

Sendo o Homem um ser espantosamente inteligente, capaz de se reconhecer nas fases cíclicas da história da humanidade e coerente com a sua própria vida, concluirá que não pode continuar a ignorar-se a si mesmo fechando os olhos aos problemas planetários que influem directa ou indirectamente no rumo do seu destino.

Analisando nesta perspectiva as graves situações que a globalização indicia, concluo pela necessidade de cada sociedade estabelecer as suas prioridades de desenvolvimento num contexto onde o Estado tenha um papel mais interveniente. Onde lhe seja possível construir um projecto próprio e desejado consensualmente pelos seus cidadãos, criando uma harmonia nacional devidamente capacitada para se inserir numa estrutura global que aceite as especificidades e diferenças de cada país. Assim, seria possível pelo menos uma orientação mundializada sem o radicalismo entre opressores e oprimidos e na procura de alternativas para a resolução de questões tão vitais como a fome e a pobreza, o analfabetismo, os cuidados primários de saúde, a exclusão social, os conflitos étnicos e religiosos, os problemas ambientais, etc.

Em suma, poderíamos começar por arrumar a casa de cada um, aproximar os diferentes níveis de desenvolvimento das sociedades, criar melhor educação mais justiça e maior solidariedade, colocar a ciência e a tecnologia ao serviço da humanidade e em defesa do meio ambiente e ainda solucionar os problemas sempre no respeito e aceitação inequívoca da diferença de raça, cultura, opinião e crença.

Podemos sonhar mas não evitar o irreversível processo natural de desenvolvimento material e espiritual, devemos no entanto procurar intervir sempre com o objectivo final de uma sobrevivência adquirida na existência de todos e da própria Natureza.

Por isso, torna-se hoje fundamental a luta contra a opressão desumana do capital, contra esta maldita globalização que perspectiva um mundo ainda mais desigual, onde os ricos serão menos e mais ricos e os pobres cada vez mais e mais pobres, onde a fome e os conflitos aumentarão, onde a justiça será mais injusta e onde até a natureza será muito mais adversa para o homem. Lutar por uma vida mais digna para todos.

EI/01 - A Globalização

Março de 2001

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