Espaço de Intervenção

de António Jorge Arranhado


As Consequências do Imperialismo

Pensando o passado e olhando o futuro de maneira alguma deveremos continuar a agir na ignorância e muito menos permitirmos que as elites governamentais nos transformem em meros cidadãos passivos da vontade de minorias perniciosas e musculadas. Dada a gravidade da situação mundial a que se chegou e das suas inimagináveis consequências para a humanidade, torna-se imperativo uma acção urgente e global com o objectivo de influenciar um futuro mais humano, mais seguro, mais digno, mais justo e mais partilhado, por isso teremos que fazer um apelo aos recursos da nossa massa cinzenta para uma melhor compreensão do passado e dos seus ensinamentos positivos e negativos que têm vindo a construir a nossa tão complexa história, a fim de prepararmos o terreno do Diálogo e da Paz e não nos deixarmos enveredar pelo caminho da irracionalidade política e militar ou de um atroz terrorismo.

A humanidade enfrenta sérios e variados perigos, não nos podemos deixar iludir pelos disfarces do lobo no meio do rebanho, a verdade da história indica-nos um caminho de dominação, exploração e morte para se alcançar mais fome e pobreza para muitos e riqueza para poucos. O nosso pretexto será a sobrevivência do Mundo.

Desde a fase final da II Guerra Mundial, as sucessivas administrações norte-americanas, sempre sob os seus superiores interesses geo-estratégicos, planificaram e realizaram inúmeras operações de "acções humanitárias" como por exemplo as seguintes e quiçá mais significativas:

1945, Japão - foram os Estados Unidos da América os primeiros e únicos a cometerem, em tão pouco espaço de tempo (3 dias), a maior atrocidade da história da humanidade quando lançaram 2 bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki onde desde as explosões e até hoje sob os efeitos da radioactividade já se estima cerca de 1,8 milhões de seres humanos vítimas na sua maioria de uma lenta agonia de décadas, uma barbárie que continua vergonhosamente impune e até quase ignorada nos media ocidentais, os mesmos que lembraram cinicamente Pearl Harbour a seguir ao nosso recente 11 de Setembro.

1948-1954, Filipinas – conselheiros políticos e militares norte-americanos orientaram uma guerra civil devastadora para várias centenas de milhares de filipinos.

1950, Porto Rico - militares norte-americanos colaboraram activamente no aniquilamento de uma rebelião pela independência em Ponce.

1951-1953, Coreia - tropas norte-americanas intervieram directamente na guerra da Coreia, onde se registaram bombardeamentos maciços sobre as populações, nesta guerra estimam-se mais de 3,5 milhões de vítimas.

1953, Irão - a CIA organizou a queda do regime de Mossadegh, o qual tinha sido eleito democraticamente e que se atreveu a nacionalizar o petróleo, para restaurar o poder do Xá.

1954, Guatemala - novamente e sem escrúpulos a CIA planificou e executou um plano para derrube do legítimo governo do democrata Arbenz tendo então imposto um governo liderado pelo Coronel Armas, cuja longa ditadura repressiva, sempre com a colaboração das autoridades norte-americanas, originou o massacre de mais de 100.000 opositores ao regime.

1956, Egipto - os EUA enviaram fuzileiros navais para o Canal do Suez depois deste ter sido nacionalizado por Nasser.

1958, Líbano - a marinha norte-americana apoiou o exército de ocupação do Líbano durante a guerra civil.

1958, Panamá - tropas norte-americanas desembarcaram no Canal do Panamá.

1961-1973, Vietname - guerra total no Vietname, onde para além dos desumanos efeitos das famigeradas bombas de Napalm as forças norte-americanas também utilizaram uma arma química com o nome de "Agente Laranja", que contaminava tudo onde caía, foi a guerra que pela sua natureza de crueldade e que mais vítimas provocou nas tropas norte-americanas (mais de 60.000) que revoltou o povo norte-americano contra as suas próprias autoridades que foram obrigadas a ceder perante o enorme movimento pela Paz que varria todas as cidades dos EUA. A guerra do Vietname originou a morte de mais de 1,2 milhão de civis desconhecendo-se o enorme número de militares mortos do lado vietnamita.

1961, Cuba - fracassou na Baía dos Porcos a invasão orquestrada, financiada e dirigida pelos EUA com o objectivo de depor e assassinar Fidel Castro e todos os seus colaboradores mais directos.

1962, Cuba - a marinha norte-americana isolou totalmente Cuba durante a crise dos mísseis soviéticos, mantendo-se até hoje um embargo total que actualmente é já considerado por quase toda a comunidade mundial de injustificável e uma afronta ao Direito Internacional, mas que muitos por razões de pressão económica ou de seguidismo político se acobardam na sua denúncia.

1962, Laos - forças norte-americanas ocuparam o Laos durante a guerra civil contra os guerrilheiros do Pathet Lao, é nesta guerra e mais tarde no Camboja que os norte-americanos usam o famoso gás de nervos Sarin.

1964, Panamá - foram reenviadas as tropas norte-americanas para chacinar panamenhos que se revoltavam contra a presença dos EUA no Canal do Panamá.

1965, Indonésia - a Cia engendrou um golpe militar que viria a ter consequências trágicas pela magnitude e selvajaria da repressão posterior que se abateu sobre toda e qualquer oposição ao regime, com a estreita e muito activa colaboração da CIA foram chacinados centenas de milhares de indonésios guerrilheiros, membros do Partido Comunista ou simplesmente indivíduos conotados com qualquer posição de esquerda, diversas fontes indicam que poderão ter sido assassinadas mais de 800.000 pessoas até à recente queda de Suharto. Será oportuno lembrar aos portugueses que a invasão de Timor Leste teve a plena concordância dos assessores políticos e militares norte-americanos devidamente instalados no regime indonésio.

1965-1966, República Dominicana - os EUA enviaram tropas sob o pretexto das eleições nacionais não serem favoráveis aos seus interesses.

1966-1967, Guatemala - os chamados Boinas Verdes invadiram novamente a Guatemala para apoio à ditadura instalada que enfrentava crescentes oposições.

1967, Líbano/Palestina – com o forte apoio e sem reservas a todos os níveis dos seus fiéis amigos norte-americanos, Israel inicia uma longa e tenebrosa guerra de ocupação e humilhação do Povo Palestiniano que sofre massacres sucessivos com milhares das suas famílias mortas em actos de pura barbaridade como os de Shabra e Shatila onde foram chacinados mais de 3.000 refugiados palestinianos, operações judaicas que nunca mereceram a indignação das democracias ocidentais já demasiado alinhadas pela propaganda anglo-americana.

1969-1975, Camboja - guerra total neste país, onde os militares dos EUA utilizaram o gás Sarin. Hoje à luz da actual situação mundial torna-se no mínimo curioso verificar que os norte-americanos para além de terem sido os pioneiros na utilização da bomba atómica foram-no também no uso das armas químicas.

1970, Oman - desembarcaram fuzileiros navais norte-americanos para estabelecimento de um apoio para objectivos no Irão.

1971-1975, Laos - sucederam-se bombardeamentos maciços pela força aérea dos EUA durante a guerra civil.

1973, Chile - as autoridades dos EUA com a sua poderosíssima CIA traçaram e executaram uma das operações mais diabólicos contra uma democracia exemplar e legitimada pelo seu povo. O plano consistiu naquilo que todo o Mundo já conhece, um sangrento golpe militar para depor Allendre, eleito democraticamente, e para impor o General Pinochet à frente de uma das ditaduras mais implacáveis em todo o continente americano com a morte e desaparecimento de largas dezenas de milhares de cidadãos chilenos. Situação idêntica à que se verificou ao longo das várias ditaduras que se foram apossando da Argentina que lamenta hoje cerca de 30.000 desaparecidos, todos opositores na maioria comunistas ou catalogados como tal. Para aqueles mais cépticos à verdade deixo aqui as seguintes palavras do ilustre "terrorista internacional" Henry Kissinger logo após conhecer o resultado das eleições no Chile: “Não temos porque aceitar que um país se faça marxista pela irresponsabilidade do seu povo”.

1980-1989, Afeganistão - os norte-americanos através da CIA treinaram, equiparam militarmente e em larga escala e financiaram com orçamentos milionários aprovados na Casa Branca os guerrilheiros na altura "lutadores pela liberdade" agora talibãs e terroristas para combater o mal do comunismo que se espalhava em terras afegãs, um mal que trouxe a estas terras menos analfabetismo, mais respeito pela cultura, mais crianças de ambos os sexos nas escolas, maior esperança de vida, mais libertação da mulher, menos sofrimento com a pobreza e muito menos fanatismo religioso, afinal os mesmos direitos agora tão reclamados na justificação em acabar com um regime quase medieval.

1981-1992, El Salvador - a CIA com a ajuda de tropas colaboram na luta contra os movimentos de libertação.

1981-1990, Nicarágua - os norte-americanos dirigiram todas as operações de repressão e silenciamento das organizações directa ou indirectamente ligadas aos sandinistas.

1982-1984, Líbano - tropas especiais dos EUA ocuparam Beirute.

1983-1984, Granada - invadiram o país para derrubar o governo de Maurice Bishop.

1986, Líbia - bombardeamentos norte-americanos em Tripoli e arredores.

1987-1988, Irão/Iraque - os EUA intervieram com apoio militar declarado ao lado do Iraque contra o Irão, permitindo o uso de armas químicas por parte de Saddam contra os militares iranianos. Nesta guerra morreram perto de 1 milhão de iranianos e várias centenas de milhares de iraquianos incluindo os curdos.

1989, Ilhas Virgens - tropas especiais desembarcaram durante uma revolta popular.

1989, Filipinas - durante o golpe de estado os norte-americanos apoiaram o governo filipino com a sua força aérea.

1989-1990, Panamá - desembarcaram para destituir o Presidente Noriega que antes tinha sido colocado no poder pelos próprios EUA.

1990-1991, Arábia Saudita - tropas americanas foram destacadas para erguer bases de apoio na guerra contra o Iraque, bases militares que ainda hoje continuam para suportar contínuos ataques ao Iraque.

1991, Iraque - guerra total contra o Iraque, onde devido aos efeitos dos constantes bombardeamentos e de sanções económicas desumanas e segundo fontes da ONU estima-se que já tenham morrido mais de 500.000 crianças pelos efeitos de umas sanções consideradas desumanas mas que ninguém se atreve a questionar os EUA sobre os seus reais efeitos.

1992-1994, Somália - ocuparam militarmente o país durante a guerra civil.

1994-1996, Haiti - a marinha norte-americana bloqueou o país e com a ajuda da CIA restaurou o regime de Aristide.

1998, Sudão - os EUA bombardearam com mísseis o país, onde atingiram uma importante unidade industrial farmacêutica, facto que após estudos confirmados pela ONU da autenticidade de ser uma fábrica de medicamentos e não de armas químicas, mereceram a condenação deste organismo mas cuja resolução nunca foi posta em prática por causa do veto dos próprios EUA.

1998, Afeganistão - iguais bombardeamentos contra supostos campos de treinamento de terroristas, alguns idealizados e financiados pela CIA através dos serviços secretos paquistaneses - a ISI.

1999, Jugoslávia - guerra sob a forma de bombardeamentos maciços sobre toda a Federação Jugoslava e com todos os tipos de armas convencionais disponíveis que destruíram quase por completo a economia desta nação, com a ajuda da NATO, e que provocaram convulsões políticas, raciais e religiosas de consequências imprevisíveis no futuro dos Balcãs.

2001, novamente o Afeganistão, não só uma das nações mais antigas do Mundo com um património arqueológico fabuloso, que apenas conseguiu a sua independência em 1921, mas também um dos mais pobres e violentados por sucessivas guerras - sob o pretexto dos atentados terroristas de 11 de Setembro os Estados Unidos da América iniciam iguais bombardeamentos que se tornarão cada vez mais violentos sobre todo o território afegão para posterior invasão com as suas forças especiais e simultaneamente irem ameaçando outros países como o Iraque, Sudão, Iémen, Síria, Líbia e apontando a mira ao Irão e talvez outros que porventura se oponham às suas "humanitárias operações pela democracia do mundo ocidental civilizado", deixando por arrastamento vários outros conflitos que em conjunto irão encaminhar a humanidade para um planeta Terra sem civilizações.

Para além de todas estas exemplares "liberdades duradouras" não podemos esquecer a Palestina oprimida e Israel opressor sempre com um forte e sustentado apoio do seu fiel amigo EUA. Certamente o conflito essencial na contínua formação de gerações de cidadãos de tal modo desesperados que transformam com naturalidade o seu próprio corpo numa arma terrível de combate, a que as nossas "dignas democracias" chamam de terrorismo cruel e fanático.

Independentemente de alguns dos acontecimentos citados terem estado sob as susceptibilidades da pressão política e ideológica inerentes às transformações que se operaram em algumas sociedades durante o período da chamada Guerra Fria, será inquestionável a influência decisiva e dominadora que toda a política externa que os Estados Unidos da América têm vindo a desenvolver em quase todas as regiões consideradas quer de áreas vizinhas ao seu espaço continental quer as detentoras das fundamentais reservas de recursos energéticos tão vitais para a sua expansão económica ou ainda aquelas onde se possam estabelecer corredores para o seu transporte.

Os Estados Unidos da América desenvolveram uma política externa que para qualquer cidadão mais atento, independentemente das suas opções políticas, sociais e culturais, não deixará de ser caracterizada por constantes e violentas acções bélicas, desestabilizações e quedas de governos, repressão, perseguição e assassínio de opositores incómodos como os comunistas, radicais de esquerda ou de qualquer grupo ou indivíduo conotado com a ideologia Marxista, acções de propaganda e desinformação pelos media, recrutamento e treinamento de mercenários e “lutadores pela democracia” como os terroristas agora perseguidos, operações de policiamento e militarização em vastas áreas do globo, imposição de determinadas regras no desenvolvimento económico e social das sociedades, supressão de direitos humanos em zonas consideradas estratégicas, submissão diplomática nas principais instituições com o consequente desrespeito de normas, acordos e convenções internacionais, espionagem electrónica à escala mundial a Estados, organizações ou grupos, empresas e a qualquer pessoa através do Echelon e agora do Carnivore, etc. Características nada abonatórias para quem se proclama o centro do “mundo livre”, que arrepiarão o cidadão comum de uma qualquer sociedade democrática ao imaginar-se num futuro próximo perante a realidade de uma ditadura militar mundial assente na completa despolitização da sociedade civil e da total submissão do indivíduo à cultura consumista. Talvez não seja inocente o facto de os EUA já terem instaladas cerca de 450 bases militares espalhadas por 36 países e estando em preparação outras em pelo menos 8 Estados sendo destes 3 ex-Repúblicas Soviéticas e outras tantas da Europa do Leste.

Os governantes dos Estados Unidos da América arrogam-se no direito de seus interesses em não participar numa luta global contra as previsíveis situações catastróficas resultantes das alterações climáticas. Arrogam-se no direito de mercado em não controlar e reduzir o comércio de armas ligeiras em todo o mundo. Arrogam-se no direito de segredo de estado em não aceitar a eliminação progressiva dos arsenais de armas químicas, bacteriológicas e biológicas, nem sequer admitindo a fiscalização dos seus. Arrogam-se no direito de dever não aceitar a interdição do uso de minas anti-pessoal. Arrogam-se no direito puro e simples de incumprimento de tratados internacionais limitativos no desenvolvimento e utilização dos meios nucleares. Arrogam-se no direito de recusarem sistematicamente a interdição do uso de armas no Espaço. Arrogam-se no direito de não aceitar a crítica boicotando as Convenções sobre todas as formas de racismo. Arrogam-se no direito de devassar as comunicações e a privacidade de tudo e todos. Arrogam-se no direito da justificação de empreender operações secretas, tais como assassinatos, sabotagens, desestabilizações económicas e políticas. Arrogam-se no direito de hostilizar todos os que não estão com os guardiões do bem, da democracia e da liberdade, na luta contra o mal. Arrogam-se no direito de globalizar no Mundo a riqueza para alguns e a miséria para a maioria. Que direitos mais se arrogarão para impor pela força dissuasora das suas armas o seu império hegemónico, o seu imperialismo? Que direitos restarão aos povos para um cada vez maior e urgente combate à falta de direitos que atinge e agoniza uma humanidade pelas injustiças e desigualdades sociais, pobreza e fome, conflitos étnico-religiosos e guerras. De que direitos poderemos ainda usufruir para vencer o caos e evitar o colapso?

Poder-se-á ser demasiado tendencioso mas toda esta arrogância que se tem vindo a avolumar desde que George W. Bush assumiu a presidência dos EUA e que se confrontava com variados obstáculos necessitava indubitavelmente de um pretexto. Coincidências ou conjuras ele eclodiu em 11 de Setembro de 2001(!).

Como diria Gandhi - ”A ‘não violência’ deve ser a única força de cada ser humano perante o seu semelhante quando tornado adversário, para vencer a sua irredutibilidade e levá-lo a ser justo”. Será suficiente? Não terão os povos outra legitimidade para lutar por Menos Fome, Mais Justiça e Melhor Ambiente?

EI/03 - As Consequências do Imperialismo

Outubro de 2001

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